desfaço os sinais dos inventores de mentiras, e enlouqueço os adivinhos

Guerra por Outros Meios | 20Abr2012 22:58:51

 


Um relatório especial por John Pilger

Lembram-se da Live Aid em 1985? Esse símbolo de preocupação e generosidade?

Sabiam que durante esse ano, os países mais famintos de África deram duas vezes mais dinheiro a nós, do mundo desenvolvido, do que o dinheiro que lhes demos?

No ano passado houve outra fome, talvez você seja um daqueles que participaram no dia do nariz vermelho. Mas sabia que antes desse dia terminar, o equivalente a todo o dinheiro que a Comic Relief angariou na Grã-Bretanha, cerca de 12 milhões de libras, tinha voltado para os países ricos?

Essa quantia é dada todos os dias pelos mais pobres aos ricos como pagamento de juros sobre os empréstimos que a maioria deles nunca pediu ou soube que existia. Por outras palavras, ao contrário do mito popular no Ocidente, têm sido os pobres do mundo que financiam os ricos, e não o contrário. E este filme propõe-se explicar porquê.

Também é um filme sobre guerra. Uma guerra que não se vê na televisão nem nas notícias. Tem sido descrita como uma guerra silenciosa onde em vez soldados estão a morrer crianças. Mais de meio milhão num ano, segundo a ONU. Isso representa mais do dobro do número de mortes na guerra do Golfo. Em vez de bombardeamento de pontes, praticam o derrube de floresta e de outros recursos naturais, a destruição de terras agrícolas e o abandono de escolas e hospitais.

Em muitos aspectos, é como uma guerra colonial. A diferença é que agora as pessoas e os recursos não são controlados por vice-reis e exércitos de ocupação, mas por outros meios mais sofisticados em que a principal arma é a dívida.
Não há balas, mas é uma guerra em que as pessoas morrem.

Guerra e dívida são exactamente a mesma coisa, excepto num ponto: não há necessidade de ocupar território.

Em 1980, o Banco Mundial e o FMI e o governo dos EUA e o governo britânico, diriam aos países em desenvolvimento: "Vocês ou cortam na despesa pública, aumentam as exportações e fazem privatizações ou não conseguirão novos empréstimos".

É o que se chama de Apertar o Cinto. O que as pessoas fazem é apertar os buracos do cinto que são mais fáceis de puxar. Esses buracos que afectam as crianças, que afectam as pessoas pobres, que afectam pessoas que não têm poder num sistema político.

Parte da concepção dos programas de ajustamento estrutural, conforme essas políticas são chamadas, reside na redução dos salários reais.
Os anos 1980 foram uma década perdida para o desenvolvimento, o impacto foi suportado pelos grupos mais vulneráveis, crianças ou mães com crianças pequenas.

Para entender a questão da dívida é preciso entender primeiro que o que está a acontecer hoje é a maior transferência da história da riqueza pública para mãos privadas

O processo de forçar a maioria da humanidade a endividar-se como meio de controlar os seus recursos, o seu trabalho e os seus governos, começou há quase meio século atrás, não foi chamado colonialismo, cujo termo foi desmistificado pela 2ª Guerra Mundial. Houve novos eufemismos de esperança. Na verdade esse foi o início daquilo a que o presidente Bush chama a Nova Ordem Mundial.
Em, Bretton Woods, New Hampshire, delegados de 44 países aliados e associados chegam para a abertura da Conferência Monetária e financeira das Nações Unidas. Convidados pelo presidente Roosevelt irão trabalhar em reclusão neste resort de White Mountains.

Juntamente com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial foi criado em 1944, na conferência de Bretton Woods nos Estados Unidos. A missão do banco era financiar a reconstrução da Europa e depois desenvolver o terceiro mundo. Decidiu-se que a sede seria em Washington e o presidente proviria do país com maior participação, ou seja, dos EUA que são o maior accionista. O Banco Mundial funciona no maior segredo com responsabilização limitada. É concedida imunidade de acção judicial a cada funcionário do Banco Mundial em qualquer lugar do mundo.
Resumindo a importância das palavras escritas, o Sr. Vinson diz "a nossa missão é uma missão de paz destinada a estabelecer as bases económicas da paz numa base de cooperação internacional genuína"
O que esse idealismo realmente quis dizer foi inscrito na Carta que eles estavam a assinar.
Com a finalidade de promover o investimento privado estrangeiro por meio de garantias ou empréstimos feitos por investidores privados.
Sr. Rao, o senhor descreveria os objectivos do Banco Mundial como idealistas?
Bem, o banco é realmente um banco de desenvolvimento. O foco principal do banco é a redução da pobreza, o desenvolvimento de países com rendimentos relativamente baixos. Penso que é um conjunto de objectivos bastante idealista. Ao mesmo tempo, o banco é um banco e tem que se preocupar com o resultado financeiro, com a sua posição nos mercados e, portanto, é, necessariamente, também uma instituição financeira muito intransigente.
O BM foi sempre enganoso sobre o seu papel na economia mundial. Tenta retratar-se como uma instituição que cuida dos interesses, não apenas dos países pobres, mas das pessoas pobres dentro desses países. Isso nunca foi o caso. O banco abona pelos interesses ou promove interesses dos países do primeiro mundo e para um sector da elite no terceiro mundo. Isto era a realidade nos anos 1970 e é particularmente verdadeiro nos anos 1980.
O que ficou conhecido como a crise da dívida que ocorreu na década de 1980 foi, no entanto, uma pequena crise para os bancos, em comparação com as catástrofes que enfrentam os povos dos países pobres.
Os bancos fizeram uma matança na década de 80. Eles fartaram-se de chorar porém, não só os bancos, mas também as instituições públicas receberam um total superior a 1,3 biliões de dólares. Isto é 1,3 seguido de 12 zeros. E a recompensa que os países devedores receberam por pagar aos credores 1,3 biliões de dólares nos últimos dez anos, foi estarem 60% mais em dívida do que estavam em 1982. Então, se não houver mudança isto pode continuar para sempre, com os países devedores a remeterem uma média de 12 mil milhões de dólares a cada mês.
A organização de direitos humanos mais antiga do mundo, a Sociedade Anti-Escravatura, declarou o endividamento como uma forma contemporânea de escravidão. Em nenhum lugar isso é mais vividamente demonstrado do que aqui, nas Filipinas, onde 44% do orçamento nacional é destinado ao pagamento de juros a bancos estrangeiros, e apenas 3% são alocados aos serviços de saúde. Além disso, milhares de milhões de dólares continuam a deixar este país apenas para satisfazer os juros sobre o dinheiro pedido emprestado pelo ditador Ferdinand Marcos, para negócios que geralmente eram secretos ou fraudulentos.
Talvez não haja maior exemplo do peso da dívida do que um famoso projecto nas Filipinas. Fica na Península do Bataan e é potencialmente tão perigoso como Chernobyl. Construído a menos de 100 km da cidade de Manila, em 3 falhas sísmicas, perto de 2 vulcões activos, um dos quais entrou recentemente em erupção, trata-se da Central Nuclear do Bataan. Nas Filipinas, é conhecida como a grande fraude.

A fraude quase de certeza que começou aqui, no Wack Wack Golf Club, em Manila, onde Ferdinand Marcos costumava jogar com o seu primo Emílio. Em 1974, a empresa americana General Electric candidatou-se para construir a Central Nuclear do Bataan, mas aceitaram a empresa com melhor oferta, a empresa Westinghouse. Além disso, o acordo seria subscrito pelo governo americano através do banco de importação / exportação e um punhado de bancos privados americanos. Todos ganhavam, excepto o povo filipino.
Em 1977 o presidente Carter parou a construção de centrais nucleares devido à sua ineficiência e concepção defeituosa. Mas não fez nada para impedir que as mesmas centrais fossem construídas em países do terceiro mundo, como nas Filipinas. Além disso, o Departamento de Estado, que aprovou as licenças de exportação da Westinghouse, sabia que Central Nuclear do Bataan estava projectada para uma área sísmica, mas mesmo assim foi incentivado a prosseguir.

Para tornar a história ainda mais dúbia, o governo dos EUA envolve-se. William Casey, que mais tarde foi director da CIA, era na altura presidente do banco de exportação e importação, uma agência que ajuda empresas dos EUA no exterior, através de empréstimos e garantias de empréstimos. Casey vai para Manila. Casey volta e recomenda ao governo dos EUA, através do banco de importação e exportação, a fornecer um empréstimo inicial que abre a porta para todos os outros bancos chegarem e concederem empréstimos. E eles começam a construir. Neste momento a Westinghouse faz o habitual: atrasos, problemas, o preço sobe, primeiro para 1,1 mil milhões e, finalmente, para 2,2 mil milhões. Alguns estimam que o custo final para as Filipinas será de 2,6 mil milhões de dólares. Portanto, fica com um fiasco de 2,6 mil milhões de dólares que nunca produzirá 1 watt de electricidade que agora o povo filipino terá de pagar.
Quando Marcos foi derrubado, em 1986, a presidente Aquino declarou Central Nuclear do Bataan insegura e foi fechada para sempre. Ao mesmo tempo, o governo iniciou uma acção legal nos EUA contra a Westinghouse.

No ano passado, o juiz americano encontrou claras evidências de suborno. No dia em que o caso deveria ter sido ouvido, em março, foi resolvido fora do tribunal. Westinghouse concordou em pagar às Filipinas 100 milhões de dólares. Mas surpreendentemente o governo de Aquino concordou em dar a Westinghouse 400 milhões de dólares apenas para colocar a central energética a funcionar, independentemente da sua localização numa zona sísmica.

E esses 400 milhões de dólares serão emprestados pelo mesmo banco americano de importação exportação e terá de ser reembolsado pelo povo filipino cuja maioria vive na pobreza.

Por que é que o povo filipino, agora que já se livrou do ditador Marcos, tem de reembolsar o dinheiro que ele recebeu do Banco Mundial, cuja grande parte ele e a sua equipa meteram ao bolso?

Bem, não sei quanto do dinheiro do Banco Mundial, ele meteu ao bolso. Há uma série de procedimentos...

Sabemos que ele embolsou bastante. Você concorda?

Do dinheiro do Banco Mundial, discordo. Há uma série de procedimentos para assegurar que os desembolsos de verbas do Banco Mundial são para projectos que são bem monitorizados e são contra compras indevidas... que também são bem monitorizadas.


O Banco Mundial e o FMI orgulham-se de serem instituições que estão a ajudar a lidar com a crise da dívida, quando estavam a ser usados por um presidente do terceiro mundo para seu proveito próprio e estavam a permitir que ele continuasse a servir como banco comercial sem ter qualquer problema e continuando a obter novos empréstimos, dos quais ele obterá quaisquer 1%, 1,5% e continua a enriquecer-se.

Por último, posso voltar-me para a nossa outra escravidão, a nossa dívida externa de 26 mil milhões de dólares. Eu disse que vamos honrá-la, mas metade dos rendimentos da exportação, 2 mil milhões de dólares, dos 4 mil milhões de dólares que é tudo o que podemos ganhar no mercado restritivo do mundo, devem ir para pagar apenas os juros sobre uma dívida cujo benefício o povo filipino nunca recebeu.

Quando Corazon Aquino chegou ao poder, ela descreveu as Filipinas como uma terra de promessas quebradas. A sua promessa ao povo filipino foi que o povo seria o beneficiário da sua revolta civilizada contra Marcos.

Irei renegociar vigorosamente, disse ela, os termos da nossa dívida externa. Mas no final, ela deu prioridade ao pagamento aos bancos. A pobreza agora está em 70% da população, um aumento superior a 10% desde que ela chegou ao poder.
Um Big Mac não é para os pobres. Com a dívida a ser paga ao ritmo de mais de 6 milhões de dólares por dia. Os ricos, como as elites em outros países devedores, cada vez mais investem em exércitos particulares para proteger os seus centros comerciais, as suas casas e os seus interesses.

Segundo a Amnistia Internacional, os assassinatos políticos realizadas pelo governo e pelas forças apoiadas pelo governo, em violação da lei, tornaram-se o problema de direitos humanos mais grave nas Filipinas.

Este é Eddie, ele tem 32 anos, um homem responsável, brilhante e decente perante uma clara opção. Ele pode vasculhar através do lixo escolhendo pedaços de lata, vidro ou plástico, de modo a ganhar a vida, ou pode deixar a sua família passar fome. Eles vivem num lugar conhecido por todos como montanha fumegante de Manila.

O fedor e as chuvas ácidas são aqui constantes. Há dois sons que dominam, o som de camiões basculantes e a tosse das crianças à medida que descem em direcção ao novo lixo como pássaros à espera do pedaço de terra onde virar. Mais de 20 mil pessoas vivem sobre e no lixo na montanha fumegante. Eles são os trabalhadores da pobreza moderna e as suas vidas uma metáfora para as condições dos povos em muitos países cujo empobrecimento na década de 1990 acelera enquanto a dívida das nações pobres continua a crescer.

O modo como estas pessoas têm de viver, tem muito a ver com decisões tomadas longe da pobreza e do mau cheiro. Eles são os produtos de ajuste estrutural, um jargão moderno, com todo o significado da moda. Isso significa uma economia remodelada e controlada por forças externas para que a dívida externa seja paga e o investimento estrangeiro e produção para exportação se torne atractiva através da mão-de-obra barata. Tão barata que estas pessoas são forçadas a viver do lixo.

É uma economia em que os não lucrativos serviços públicos como escolas, hospitais e água corrente e limpa, são dispensáveis.
Há quanto tempo vives aqui, Eddie?
Há quase 13 anos.

Podes dizer que vieste para Manila a pensar que encontrarias emprego. Era o que todos na província pensavam nessa altura?

É por isso que vivo na montanha, porque se não trabalhar o dia todo não tenho nada para comer.

Este é o bairro estruturalmente ajustado de Eddie, que é, periodicamente, demolido para dar lugar a mais lixo. Para comer e alimentar a sua família, Eddie e a sua esposa, Teracita, têm de trabalhar pelo menos 12 horas por dia para conseguirem pouco mais de 2 libras. Esse valor paga 2 refeições básicas, principalmente de arroz, para eles e para os seus 4 filhos. Quando Teracita estava a dar à luz a sua bebé Grace, Eddie pagou a parteira com a venda de madeira que era para ser o tecto do seu segundo quarto. Todas as crianças nascidas na montanha fumegante têm grandes probabilidades de não viver até à idade de 5.
Quase 30% das crianças. O problema é diarreia e pneumonia e má nutrição.
30% pneumonia e diarreia e má nutrição.

Isto não é surpreendente, pois vivem sem água potável e saneamento e não podem pagar médicos e clínicas à medida que os serviços sociais são cortados e privatizados.

Se não tem dinheiro por vezes as crianças morrem.
Então, a menos que possa comprar medicamentos, é bem possível que os seus filhos morram.
Tentamos fazer o nosso melhor.
Esta situação é muito difícil.

Esta é a minha casa. A minha esposa, esta é a minha filha e os outros dois que estão cá fora.

Olá, qual é o nome dele?
Eduardo junior.
É o único rapaz.

De tudo aqui, a única coisa que me impressiona é a música muito romântica.
Vocês são românticos? Vocês os dois? São um povo romântico?
Sim, porque não tínhamos 6 filhos se não fossemos românticos.
Teracita, o que aconteceu quando o seu último bebé nasceu?

Houve uma tempestade terrível nessa noite e nós estávamos aqui em casa e eu estava a segurar o bebé e a embalá-lo o e a tempestade estava em fúria e as outras crianças estavam aqui esmagadas contra nós, para que a chuva não lhes chegasse. Sabe, isto fica inundado. Nunca tivemos dinheiro para consertar o telhado e está sempre a pingar. Eu estava preocupada que, se eles se molhassem ficariam doentes, como os meus outros filhos que morreram.

O meu filho mais velho tinha 4 anos quando ficou doente, ele ficou doente aqui nesta casa. Eu não sabia o que fazer, ele vivia aqui, nestas condições imundas, fumo e tudo mais e ficou com diarreia muito má que o matou. Naquela época eles estavam a demolir as casas, em 1982. Tive uma disputa com um homem da demolição, eu implorei, “aguarde até que eu enterre o meu filho antes de demolir a minha casa”. Consegue imaginar? Você tem um corpo morto em sua casa e eles querem demoli-la.

Ela tinha vermes que saíam pela boca?

Por isso levei-a para o hospital. Porque naquela altura eu podia ir até o hospital. Então, quando ia para o hospital vi que meu bebé já estava morto.
Fizemos os cálculos para mostrar quantas crianças morrem nas Filipinas por causa da forma como a crise da dívida está a ser gerida e calculamos em quanto o orçamento da saúde foi cortado. E com base nisso, obtivemos o valor de que a cada hora que passa uma criança Filipina morre por causa do aumento dos pagamentos de serviços da dívida.

A dívida, para a maioria das pessoas, parece ser um assunto para as páginas financeiras, para os bancos e para os governos, mas, na verdade, a dívida tem sido, na última década, o maior factor que contribui para a fome e a miséria.
As Filipinas gastam quase metade do orçamento nacional em pagamento dos juros da dívida aos bancos estrangeiros.

Estas são crianças sem-abrigo nas ruas de Manila, mas poderiam estar em qualquer lugar no mundo endividado.

Aqui o problema dos sem abrigo tornou-se tão grave que esta unidade da polícia não faz mais nada para além de reunir crianças e tentar encontrar instituições que tomem conta delas. Mas estas instituições são poucas e a maioria das crianças volta para as ruas. O Tenente Siochi e os seus homens gerem esta unidade, em parte, dos seus próprios bolsos. Todos eles fazem trabalhos extra como taxistas e vendedores de gelados, mas esses empregos são cada vez mais raros.

A autoridade Nacional de Desenvolvimento Económico estima que, em resultado das políticas do FMI, meio milhão de trabalhadores perderão os seus empregos nas Filipinas este ano. Isso significa mais crianças nas ruas.
De onde vêm estas crianças? As crianças que vemos nas ruas.
Algumas delas vêm das províncias e das famílias com baixos rendimentos aqui em Manila.

Eles vêm para Manila com as suas famílias?

Sim, sim. E eles descobriram que Manila não é a felicidade que eles pensam. Agora não. Antes eles podiam conseguir emprego fácil aqui. Mas agora não.
As crianças estavam a dormir sozinhas. Será que elas perderam contacto com as suas famílias?

Os seus pais abandonaram-nos por causa das dificuldades. Eles não podem alimentá-los.

Então, eles estão muito vulneráveis às drogas?
Alguns deles.

Reparo que alguns deles parecem que têm consumido.
Sim, é verdade.

E prostituição?

Há meninas da rua, chamamos-lhes meninas trabalhadoras, porque já são prostitutas.

Alguns deles estão doentes e com fome, mas assim que os levamos a instituições não-governamentais, como este centro, deixamo-los lá e esses trabalhadores sociais cuidam deles.

O governo está preso na armadilha. O governo tem de pagar dívidas internacionais geradas pela última administração de Marcos.
Então, o que está a dizer é que a pressão recai sobre a sociedade devido ao imenso pagamento que o governo tem de fazer? Os recursos vão para fora, e não sobra dinheiro para fazer algo sobre os sem-abrigo.

Sim. É suposto pagarmos ao FMI, demasiada dívida.
Este bebé com 15 dias de idade, nasceu nas ruas. Os pais são adolescentes e foram eles mesmos crianças de rua e produtos da era da dívida. A mãe nasceu no ano em que o Banco Mundial declarou que as Filipinas eram um caso especial para o desenvolvimento e emprestou ao ditador Marcos mais de 4 mil milhões de dólares.

Durante o seu tempo de vida, o número de pessoas em situação de pobreza aumentou em quase um quarto da população.

As Filipinas estão a piorar. Só Deus, talvez, pode salvar as Filipinas.
Não há qualquer razão para que este país tenha de ser pobre.
Sim, não há razão. Somos muito ricos em recursos naturais, podemos manter-nos por nós próprios.

É um país abundante em comida. Mas a comida não paga a dívida ou encoraja os investidores estrangeiros e portanto a agricultura, e todo um modo de vida, tem sido estruturalmente ajustado. Este é o super-projecto Calabarzon, transformando terras de cultivo de alimentos em fábricas para a produção de exportação. Financiado em grande parte pelo Japão, é aquilo que exige o FMI chamando-lhe reforma. As novas fábricas vão produzir novas receitas e lucros para os estrangeiros assim como irão produzir também nova dívida para as Filipinas.

O Calabarzon classifica o tipo de estratégia de desenvolvimento que só traz ruína para o terceiro mundo, porque tal estratégia prima pelo desenvolvimento massivo, ou assim chamado desenvolvimento, pela exploração maciça do meio ambiente, mudanças no modo como as pessoas vivem, tirando as terras ao povo para as converterem nas chamadas zonas industriais com os problemas de poluição e tudo mais. E, geralmente, estas estratégias de desenvolvimento são alimentadas por dívida, alimentadas pelo investimento estrangeiro.

O projecto Calabarzon vai destruir a terra de cultivo da qual se calcula estarem 8 milhões de pessoas dependentes. Os agricultores receberam pouco ou nenhum aviso prévio e geralmente a indemnização é escassa. Nesse meio tempo, muitos deles acabam nas ruas de Manila, sem tecto. As fábricas japonesas, americanas e outras estrangeiras vão erguer-se nas pradarias e campos.

Este é o tipo de desenvolvimento que deve ser travado, porque não é desenvolvimento. É a destruição do meio ambiente, é o empobrecimento do povo e está a empurrar o país para uma armadilha de dívida.

Existe aqui uma ironia terrível. Enquanto o mundo rico sensibiliza o pobre sobre a importância da preservação do meio ambiente, o FMI e os bancos dizem ao povo das Filipinas que devem exportar, a fim de saldar as suas dívidas embora tudo o que os filipinos têm na sua terra frágil sejam minerais e florestas. Portanto a terra deve pagar a dívida. As mangueiras são abatidas, os recifes de coral arrancados para que os seus pedaços junto com os peixes tropicais dourados possam ser vendidos para a América. E a destruição da grande floresta tropical está quase completa.

Este é o resultado final. Em 1991, um tufão deixou 6000 mortos, 43.000 desalojados numa área onde anteriormente a floresta protegia o povo de inundações e deslizamentos de terra.

Até ao ano 2000, dificilmente haverá árvores de pé. Florestas tão grandes como a Dinamarca foram arrasadas, colocando fim a um dos mais ricos ecossistemas do planeta. A casa de milhares de espécies de plantas e animais.

O ambiente é provavelmente a principal vítima junto, com os seres humanos, da crise da dívida. Só porque os países são obrigados a transformar em dinheiro os seus recursos, têm de abater as suas florestas, têm de escavar os seus minerais, e arruinar a sua terra produzindo culturas de rendimento que possam render moeda suficiente para continuar a pagar a dívida. Existe uma correlação quase perfeita entre os devedores de topo e os desflorestadores de topo. É uma correlação muito marcante.

Na Amazónia, Brasil, em Gana, na Costa Rica, são construídas estradas, são dados incentivos para permitir a extracção desses recursos. Especialmente agora, com o ajustamento estrutural, existe um programa em vigor, na maioria dos países, de desregulamentação, que está a desregular o controlo dessas indústrias e também não há dinheiro suficiente no orçamento para supervisionar essas actividades. Temos visto a violação em saldo destes ambientes.

Na conferência de 1991, o Banco Mundial e o FMI pareciam estar a fazer um compromisso especial com o meio ambiente. Qual seria a sua resposta a isso?
O Banco Mundial agora diz que é ecológico, o que não diz é o quanto destruiu através das suas políticas. Não é suficiente colocar uma cauda verde num cão monstruoso que está destruindo o meio ambiente e é isso o que a dívida está a fazer.

Bem-vindo à conferência do Banco Mundial e do FMI em Bangkok. O objectivo da conferência é, e passo a citar, "encontrar maneiras de erradicar a pobreza em todo o mundo". A última das suas contradições. A maioria dos delegados são banqueiros, não é para sugerir que os banqueiros não se preocupam com os pobres, é só que algumas coisas são difíceis de explicar, como a razão porque os funcionários do Banco Mundial gastam na busca de solução para o pobres, cerca de 45 milhões de dólares por ano, voando em primeira classe, ficando em hotéis cinco estrelas. E a razão, de nesta conferência, estarem a trazer chefes especialmente de paris para um país onde as crianças ainda morrem de má nutrição. E porque é que precisam de ser acompanhados por mais médicos do que a maioria das pessoas no Sudeste Asiático vê em toda a sua vida. Felizmente, as pessoas que melhor os podem aconselhar a erradicar a pobreza estão logo ao atravessar da rua.

No entanto, os banqueiros não podem vê-los porque foi colocada uma parede para esconder os pobres durante a conferência. As pessoas responderam pintando a parede com cores brilhantes, de forma a atrair as atenções. Sem dúvida que se preocuparam em que os delegados ainda pudessem, mesmo assim, ver uma pessoa pobre. Por isso o governo colocou autocarros estacionados em frente ao muro.

A maioria destas pessoas é comerciante de rua, mas na preparação para a conferência, centenas de vendedores foram quase literalmente varridos das ruas de Bangkok. Então, aqui eles sentam-se com as suas carroças vazias, escondidos de alguns, incapazes de se sustentar enquanto durar a conferência sobre a pobreza.

Durante anos, uma das referências de Bangkok à chegada ao aeroporto, era uma comunidade de pessoas a vivendo ao lado destas linhas de comboio. 500 famílias viviam aqui. Poucas semanas antes da conferência do Banco Mundial começar, foi tudo demolido, casas, um jardim-de-infância e uma escola improvisada.
Quando se soube que a reunião do Banco Mundial iria ser realizada aqui, as pessoas foram avisadas de que tinham que sair. Houve uma citação num jornal, em que um funcionário do estado disse que eles eram uma ofensa para a vista. Essa palavra deu que falar, as pessoas não se esquecem dessas palavras, por isso muita gente disse que não, nós não somos uma ofensa para a vista, estas são as casas de trabalhadores pobres. Mas, infelizmente, foram consideradas como tal. Eram casas com aparência desarranjada e havia uma espécie de pensamento na época que propagandeava que deviam ser arrumadas. E ou construíam à volta ou deslocavam-nas que foi o que aconteceu.

Assim, não seriam vistas pelos banqueiros, pelos delegados da conferência, é isso?
Penso que essa era a ideia.

Eles não foram realojados, eles construíram as casas deles 500 metros mais abaixo, onde não podiam ser vistas da estrada.

Para muitos deles um efeito adicional foi o desemprego, porque nessa mudança eles não puderam ir trabalhar e perderam os seus empregos. Uma das razões do Banco Mundial e do FMI escolherem Bangkok para a sua conferência foi o facto de considerarem a Tailândia como um modelo económico para outros países seguirem.

Esta conferência parece-nos ser, o que era habitual chamar-se um evento mediático e para outros parecia ser uma farra. É difícil para algumas pessoas entenderem o que é que esta conferência tem a ver com ajudar as pessoas necessitadas, pobres.

Bem, estou aqui há quase uma semana e passei a maior parte do tempo em reuniões. Reuniões com funcionários do governo, tivemos reuniões com vários comités para discutir políticas e a minha perspectiva é diferente da sua. Este encontro proporcionou que ministros e governantes de todos os nossos países-membros trocassem opiniões sobre a forma como vêem a evolução da economia mundial e as necessidades dos países em desenvolvimento. Acho que o que se destaca nesta reunião anual do FMI e do Banco Mundial, é um consenso muito forte sobre o tipo de políticas funcionam e o tipo de políticas que não funcionam. Tenho, vejo e ouço um sentimento de optimismo sobre esse assunto nesta conferência. Isso não existia no início de 1980. Penso que você está reflectindo experiências e acontecimentos de um período no passado e que muita coisa aconteceu, especialmente nos últimos anos, em muitos países que têm sido capazes de alcançar algum sucesso nas suas reformas económicas.

Não concordo. Estamos em 1991 e a dívida ainda é um grande problema para os países como as Filipinas e, talvez, 70 outros países do terceiro mundo que ainda estão na armadilha da dívida. Do ponto de vista dos bancos, a crise da dívida já acabou porque estão protegidos pelas reservas de empréstimos perdidos. Do ponto de vista multilateral a crise da dívida acabou porque não houve qualquer interrupção nos pagamentos. Eles aceitaram as condições, eles aceitaram os termos e garantiram que serão pagos de forma contínua. Assim, a partir do ponto de vista deles a crise da dívida acabou, porque eles estão seguros, os multilaterais estão seguros, os bancos comerciais estão seguros, os países fiadores estão seguros, mas as pessoas do terceiro mundo não estão seguras porque continuam a pagar uma dívida.

A dívida foi crucial para a pressão exercida pelos EUA na construção da chamada coligação contra Saddam Hussein. A guerra do Golfo foi considerada a aurora de uma nova era para a ONU. A Nova Ordem Mundial em acção. Na verdade, os EUA foram capazes de adequar o Conselho de Segurança da ONU aos seus planos de guerra usando a dívida nos bancos internacionais.

Disseram ao Egipto, que se se juntasse à coligação, seriam eliminados da sua dívida nacional 14 mil milhões de dólares. E o Irão, informou a Reuters, foi recompensado pelo seu apoio dos EUA com o seu primeiro empréstimo do Banco Mundial desde a revolução islâmica em 1979. Um dia antes do ataque o banco mundial aprovou um empréstimo para o Irão de 250 milhões de dólares e a China recebeu o primeiro empréstimo do banco mundial desde o massacre da Praça Tiananmen, apenas uma semana após o ministro de negócios estrangeiros da China, visitar o presidente Bush na Casa Branca.

Fora do banco, foi prometido à Síria um negócio de armas de mil milhões de dólares, intermediado por Washington e foi organizada a oportunidade de tirar uma fotografia com o Presidente Bush. Um terrorista internacional, de repente tornado um velho amigo.

A votação dos membros não permanentes do Conselho de Segurança foi crítica. Minutos após o Yemen votar contra a resolução de ir à guerra, um diplomata americano foi instruído de dizer ao embaixador do Yemen, que foi o voto contra mais caro que alguma vez expressaram. O que significa a interrupção da ajuda dos Estados Unidos, no valor de 70 milhões de dólares, para um dos países mais pobres do mundo.

O uso de dívida para subornar uma coligação não era nada de novo. A manipulação do Banco Mundial foi documentada no início dos anos 1980 num relatório secreto do tesouro dos EUA. Diz o relatório: “Os EUA,
"... somos capazes e estamos dispostos a prosseguir importantes objectivos políticos nos bancos através do exercício da influência financeira e política à nossa disposição”

Ou seja, os EUA são capazes de impor a sua vontade sobre o Banco Mundial.
A influência da Grã-Bretanha sobre os bancos internacionais, é pequena em comparação com os EUA. Mas os bancos de alta finança britânicos estão profundamente envolvidos nas dívidas do terceiro mundo. Num ano, em 1990, os países pobres transferiram mais de 6 mil milhões de libras líquidos para os bancos britânicos. Além de tudo isso, foram permitidos benefícios fiscais aos bancos para fazerem provisão para os chamados créditos obscuros. Entre 1987 e 1990, esse benefício fiscal foi de 1,6 mil milhões de libras. O equivalente a 10 vezes o que o povo britânico dá em doações de caridade para o terceiro mundo.
Convidamos todos os bancos de alta finança para uma entrevista sobre o assunto, todos eles se recusaram. Então pedimos à associação de banqueiros para explicá-la e disseram que não era incomum. Sendo um negócio antigo, segundo eles, os benefícios fiscais têm de ser reembolsados quando o valor do empréstimo inicial for recuperado. Enquanto isso, os bancos podem manter a isenção de impostos e ainda exigem pagamentos de juros. E essa exigência constante é verdade também no caso do FMI e do Banco Mundial.

Claramente, ninguém está a restituir dinheiro que não pediu emprestado em primeiro lugar. Então o que está agora a ser restituído foi, na verdade, dispensado alguns anos antes e o que está a observar são os juros que são pagos sobre empréstimos que, acho eu, qualquer pessoa com uma hipoteca reconhece. Estamos a observar vários reagendamentos desses pagamentos. Todos os diversos países endividados com que estamos preocupados reagendaram e adiaram os seus pagamentos, significativamente para muitos dos seus credores e o que se está também a observar é o pagamento de juros sobre as verbas que estão na posse desses países.

Em 1991, o primeiro-ministro John Major anunciou que o governo britânico iria limpar a dívida de certos países africanos, coisa que embora tenha importância, representa apenas 1% da dívida mundial. Para acabar com a tirania da dívida e para combater a pobreza tem que haver um pensamento radicalmente novo. A única solução para a maioria dos países pobres é que a sua dívida seja eliminada completamente ou que pelo menos que os seus reembolsos de empréstimos sejam canalizados de volta para o verdadeiro desenvolvimento que coloca o cultivo de alimentos, a saúde e a educação, à frente do assim-chamado crescimento económico. Os bancos não são os únicos culpados pela dívida e pobreza, mas não é possível que eles cuidem dos interesses do mundo rico e do mundo pobre ao mesmo tempo.

O Banco Mundial e o FMI devem ser abolidos e substituídos por uma agência de desenvolvimento real, sem fins lucrativos e totalmente livre de vínculos políticos de modo a poderem ajudar as nações a desenvolverem-se nos seus próprios termos, atendendo às suas necessidades.

Na década de 1990, o terceiro mundo e os estragos da dívida voltaram para a Grã-Bretanha, quando os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres. Nenhum outro país na Europa viu esse dramático aumento de pobreza. Agora, uma em cada 5 crianças britânicas vive na pobreza. Claro, durante a década de 1980, um grande número de pessoas parecia estar muito bem, vivendo da dívida. Eles tinham empregos e pequenas empresas, mas agora os empregos foram perdidos e as empresas foram à falência, e 18.000 casas foram retomadas por ano, muitas dessas pessoas juntam-se agora aos sem-abrigo e, como no terceiro mundo, a pobreza mata, diz o professor Peter Townsend, uma autoridade mundial, que isto não é um comentário político ou social, disse ele, mas um facto científico.

A crise da dívida teve início em 1982, e se se prolongar por mais 10 anos, teremos de pensar em todos os jovens de 18 anos de idade que não conheceram outra coisa nas suas vidas que não fosse austeridade. E essas crianças estão extremamente frustradas e extremamente zangadas.

As consequências humanas da dívida têm sido uma história não-escrita e se se perder a oportunidade quando uma criança tem 1 ou 5 ou 10 anos para lhe proporcionar nutrição básica, educação básica, um lar com amor e carinho, haverá consequências quando essa criança chegar a adulto e temo que veremos essas consequências e teremos de viver com elas dentro de 20, 30, 40 anos.
Dado que a maioria dos países tem recursos suficientes para prover para o seu povo, porque é que eles têm que tolerar um sistema que força os pais a verem os seus filhos morrer lentamente, como os filhos de Eddy e Teracita, nas Filipinas. Na verdade, porque é que o peso da dívida há-de cair sobre os  menos responsáveis por ela?

No extremo oposto, porque é que a alta finança britânica obtém benefício fiscal de mais de um milhar de milhão de libras apenas para o caso que os empréstimos não sejam pagos. Esse montante permitia imunizar 400 milhões de crianças contra doenças preveníveis.

Sobretudo, porque é que as vidas de pessoas comuns podem ser controladas por uns poucos, que são eles próprios imputáveis e cujas decisões e sentenças são ditadas pela crença de que a economia não tem o desígnio de servir as pessoas, mas uma espécie de santidade exigindo ofertas regulares, alimentando com sacrifícios de sangue um deus chamado resultado final.

A dívida de todos os países pobres significa menos de 5% dos empréstimos dos bancos comerciais. Se a dívida fosse cancelada incondicionalmente, os bancos dificilmente notariam a diferença. Se não for cancelada, a cena mostrada neste filme vai durar e as pessoas podem não aguentar mais e, talvez, a guerra da dívida deixe de ser silenciosa. É esse o tipo de mundo que vamos dar às crianças que chegam ao século 21?

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