desfaço os sinais dos inventores de mentiras, e enlouqueço os adivinhos

Desonestidade científica e energia nuclear | 05Jan2013 17:33:52

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Este artigo baseia-se na palestra do Dr. Chris Busby sobre desonestidade científica em questões nucleares, na Royal Society em Londres, em novembro passado [2011]. Ver também o vídeo da palestra – Há também uma apresentação em Powerpoint.

Desonestidade e a interface ciência-política
Dr. Christopher Busby

Há um problema para o qual quero chamar a atenção daqueles que observam o mundo e os disparates dos que o governam. É um problema que me vem a exercitar a mente há algum tempo, um problema com o qual deparei em resultado do meu interesse pelos efeitos das baixas doses de radiação na saúde. Escrevi sobre a minha investigação e as minhas descobertas nesta área (Busby 1995, 2006) e, mais recentemente, sobre os efeitos das armas de urânio na saúde (Busby UNIDIR 2009). Mas à medida que fazia as minhas pesquisas ingénuas nessas áreas da ciência, apercebi-me logo no início que havia uma lacuna perigosa entre aquilo em que os políticos e aqueles que mandam acreditam (ou dizem que acreditam) e os factos, se é que os posso (também ingenuamente) chamar assim. Em 2003, pediram-me para chefiar o grupo da Interface Ciência-Política de uma organização financiada pela UE, a Rede de Informação de Políticas sobre a Saúde das Crianças e o Ambiente (PINCHE). Foi aí que conheci um grande número de notáveis investigadores científicos e médicos de toda a Europa e, nas reuniões que tivemos, discutimos as formas pelas quais a ciência se traduz em políticas, um assunto que eu tinha estudado e observado na área do risco das radiações. Acho que fui escolhido para este lugar devido à minha experiência na área e ao meu cinismo. Sem dúvida que o usei para assegurar que o relatório final deixasse claro aos Comissários da UE (van den Hazel et al. 2006) que havia uma tendenciosidade na Interface Ciência-Política que era necessário corrigir (caso ainda não o soubessem, é claro). Escrevi bastante sobre tudo isto no meu livro Wolves of Water. O que quero fazer aqui é tentar levar mais longe esta questão. Baseio este ensaio na apresentação que fiz na Royal Society de Londres, em outubro de 2007, onde Roger Coghill me pediu para revelar os podres desta área da ciência e da política com base em algumas das minhas experiências.

Deixem-me começar por dizer que aqueles que pensam que existe uma conspiração para excluir a verdade nas várias áreas associadas ao risco ambiental estão totalmente corretos. Existe. Como é que ela funciona é que não sei bem, mesmo nos casos bastante bem definidos que vou apresentar aqui. Por que motivo as principais personalidades agem como o fazem? Acho que provavelmente existem muitos fatores, financeiros, culturais, legais, psicológicos e económicos, entre outros. Também medo: na Comissão CERRIE (Comissão de Análise aos Perigos da Radiação proveniente de Emissores Internos), os membros da comissão foram ameaçados com processos individuais e subsequentemente alteraram a sua posição e votaram na direção oposta (CERRIE 2004b). Existem certamente truques baixos. O que reparei é que muitas vezes as pessoas que estão no cerne de um certo comportamento questionável ou desonesto são pessoas vindas daquilo a que eu chamo uma cultura subordinada, pessoas que tiveram uma infância pobre, pessoas das colónias que querem pertencer ou ser importantes, oriundas de zonas pobres do país, pessoas que não frequentaram as melhores universidades, pessoas que têm algum motivo para vincular a sua segurança psicológica ao seu cargo, cargo esse, normalmente um cargo importante, que lhes foi dado pelo governo. Estão tão gratas e com tanto medo! Suponho que muitos políticos serão assim: por que outro motivo quereríam ser políticos? A filtragem seletiva de tipos de personalidades para o poder é uma área interessante em si e uma área que, essencialmente, faz da democracia uma absurdidade.

Mas o resultado final é que, por causa do comportamento dessas pessoas, as provas científicas são ignoradas ou marginalizadas ou, em alternativa, são utilizadas provas científicas incorretas como base de políticas. Muitas vezes, ou de facto, usualmente, essas políticas são necessárias para o bem-estar de alguma indústria poderosa ou grupo poderoso, ou dos militares. Um exemplo excelente e bem conhecido é o da BSE/CJD, a doença das vacas loucas. Todos nós sabemos que a comissão governamental que considerou os argumentos científicos de que a doença podia infetar os seres humanos fez pouco caso das provas experimentais e tomou decisões erradas que conduziram à morte de muitas pessoas. Noto que ninguém foi levado a tribunal por causa disso e que nenhuma empresa industrial que produzia os alimentos envenenados para animais foi multada. Curiosamente, o presidente dessa comissão, Sir Richard Southwood, foi também presidente do Conselho Nacional de Proteção Radiológica durante muitos anos, inclusive no período de Chernobyl. Também aí esteve errado. Mas não está na cadeia. E os cientistas que faziam parte dessa comissão e que foram responsáveis, não deviam ser pelo menos acusados de desonestidade científica, de algum crime? Deixem-me colocar isto noutro contexto. Se houver um assassínio e o assassino estiver sentado no banco dos réus e for chamada uma testemunha que jura que ele está inocente e não divulga provas que possui de que o assassino é culpado: essa pessoa não é culpada de um crime? Vou apresentar-vos alguns casos dos quais tenho experiência pessoal. Vou deixar-vos decidir se essas pessoas foram desonestas ou apenas estúpidas ou talvez culturalmente tendenciosas, querendo com isto dizer que elas pensavam honestamente que sabiam o que realmente se passava e não fizeram caso de provas com as quais, por alguma razão defensável, discordavam. Mas seja qual for a decisão que venham a tomar relativamente a cada caso, quero que estejam cientes de que, em resultado dessas ações, ainda hoje se mantêm políticas e leis que provocaram e irão provocar a morte de milhões de pessoas. Não é exagero. O número de mortes resultantes da contaminação radioativa permitida pelo comportamento dessas pessoas é superior a 60 milhões (ECRR2003) e esta questão é o maior escândalo de saúde pública da história. Muito se disse e escreveu sobre Hitler e as câmaras de gás. O envenenamento sistemático da raça humana pela nova poluição radioativa e agora por partículas de urânio faz o número de mortes da Segunda Guerra Mundial parecer bastante ligeiro.

Idealmente, a democracia depende de os decisores políticos terem o melhor conhecimento das consequências das suas decisões. A investigação mostrou que os políticos são, em geral, iletrados cientificamente e portanto têm de depender de comissões de peritos científicos para obterem esses conhecimentos. A participação nessas comissões não é democrática e isso introduz tendenciosidade. (Scott Cato, Bramhall e Busby: I don’t know much about Science, 2000). As comissões científicas dependem da literatura revista por especialistas e ignoram a literatura “cinzenta”. Muitas vezes ignoram também a literatura revista por especialistas se não estiver de acordo com alguma crença pré-existente. A sua interpretação da literatura é sempre influenciada pelas suas filiações. (Ruden 2000, 2001, 2003. PINCHE 2005, Judson, 2006). A própria literatura revista por especialistas é muitas vezes influenciada pela filiação dos investigadores e pela filiação do revisor ou do editor. Além disso, a literatura revista por especialistas pode ser influenciada pela escolha do tópico de investigação (por conseguinte quem financia a investigação). A literatura revista por especialistas pode, de facto, ser tão manipulada ao ponto de se aproximar da desonestidade; pode ter dados falsos e ser, efetivamente, desonesta. Atualmente não existe nenhuma lei contra essa desonestidade ou aconselhamento tendencioso e os culpados não são vistos como criminosos nem punidos de qualquer forma no Reino Unido. Neste momento não existe Crime Científico e, na minha opinião, devia existir.

Como é que a desonestidade científica pode ser criminosa? Como é que julgamos os cientistas? Qual é o enquadramento ético a aplicar? Nos tribunais britânicos, as provas apresentadas num processo afetam o resultado. Por este motivo, as testemunhas têm de jurar dizer a verdade, toda a verdade e só a verdade. Se, mais tarde, se descobrir que mentiram, podem ser processadas e presas. Acho que no atual sistema de Ciência e Política, a Sociedade devia aplicar o mesmo argumento. Os cientistas, devido às consequências graves e reais que as suas provas têm para a saúde humana, têm a mesma responsabilidade de uma testemunha num processo-crime.
Deixem-me dar alguns exemplos:

1. Encefalopatia espongiforme bovina; BSE/CJD; neste caso, uma comissão de peritos ignorou os cientistas (por exemplo, o Prof. Richard Lacey) que apresentaram provas de que o agente atravessava as barreiras entre espécies; muitas pessoas morreram. O presidente era Sir Richard Southwood.

2. Chernobyl; Conselho Nacional de Proteção Radiológica (NRPB) e as leucemias infantis; após Chernobyl, o NRPB aconselhou que a contaminação por Cs-137 das terras altas (País de Gales, Cumbria, Yorkshire) estava dentro de níveis seguros e desapareceria dentro de semanas (presidente, Sir Richard Southwood); essas zonas ainda hoje têm restrições relativamente à criação de ovinos. Morreram crianças com leucemia. As taxas de cancro de adultos aumentaram; o registo de cancro falsificou os números (ver Wolves of Water).

3. Carcinogenicidade do tricloroetileno e a UE; Christina Ruden, filósofa do Instituto Karolinska da Suécia, revelou em três artigos de que forma os argumentos tendenciosos apresentados pelos cientistas que trabalham para a indústria atrasaram a classificação do TCE como agente cancerígeno em 5 anos ou mais. Muitas pessoas terão morrido por não terem sido aplicados limites adequados (ver relatórios da rede PINCHE).

4. Poluição radioativa e cancro; na sequência da concentração de casos de leucemia infantil de Sellafield descoberto em 1983 pela Yorkshire Television, houve um encobrimento de alto nível dos efeitos da exposição a baixas doses de radiação interna envolvendo o Comité sobre os Aspetos Médicos da Radiação no Ambiente (COMARE), a Small Areas Health Statistics Unit (SAHSU), a Comissão CERRIE e, uma vez que se aplicava às armas de urânio, a Royal Society. Centenas de milhares morreram ou estão doentes. As provas não foram traduzidas em políticas devido à tendenciosidade científica.

5. Telemóveis e cancro; este problema é atual e, em consequência de tendenciosidade e desonestidade científicas, um número muito elevado de pessoas irá adoecer e morrer.

6. A Royal Society e o urânio empobrecido
Prof. Brian Spratt FRS e Prof. William Bonfield FRS, que vou apresentar a seguir.

Na reunião da Royal Society, dei exemplos de uma série de cientistas cujas ações e publicações eram questionáveis e convidei a audiência a considerá-los no contexto de desonestidade científica. As minhas acusações não eram novidade. Eu tinha incluído as histórias no meu livro Wolves of Water, escrito principalmente para chamar a atenção para as falhas da ciência, ou antes, a forma como a ciência estava a ser utilizada para assegurar a sobrevivência da indústria e dos militares numa sociedade democrática cujos membros estavam a ser sistematicamente envenenados.

Neste breve ensaio, vou concentrar-me em quatro das histórias que apresentei para dar uma ideia do tipo de problema que enfrentamos. Vou analisar o Professor Dudley Goodhead e a Comissão CERRIE, o Professor Ray Cartwright, epidemiologista, a Professora Sarah Darby e o falecido Professor Richard Doll, ambos epidemiologistas, e na Royal Society, Professores Brian Spratt e William Bonfield.

Prof. Dudley Goodhead
Goodhead, um sul-africano originalmente de Durban, tornou-se diretor do grupo de biologia das radiações do Medical Research Council, no Atomic Energy Research Establishment em Harwell. Em 2001, foi nomeado presidente da Comissão de Análise aos Perigos da Radiação proveniente de Emissores Internos ou CERRIE.

A Comissão CERRIE foi fundada em 2001 por Michael Meacher, ministro do Ambiente, para analisar as preocupações suscitadas por mim e pelos meus colegas sobre o cancro próximo do mar da Irlanda, próximo de instalações nucleares e nas crianças na Europa depois de Chernobyl. Goodhead inicialmente concordou e organizou estudos epidemiológicos conjuntos sobre o cancro ao nível de enfermaria, próximo das instalações nucleares de Bradwell, a realizar por Chris Busby, Colin Muirhead (NRPB) e Richard Wakeford (BNFL). A equipa analisaria os dados ao nível de enfermaria obtidos do Instituto Nacional de Estatística pela comissão, para confirmar os elevados níveis de cancro da mama notificados por Busby em estudos do Green Audit (mas negados pela Small Area Health Statistics Unit, SAHSU, do governo), próximo do estuário contaminado com radioatividade do rio Blackwater. Em 2004, depois de Meacher ter sido despedido por Tony Blair, Goodhead encerrou o projeto apesar de os protocolos terem sido acordados em várias reuniões do subcomité de epidemiologia da Comissão CERRIE. Isto porque nessa altura era claro que os estudos da SAHSU governamental sobre esta questão tinham falhas graves devido a erros de omissão de populações das enfermarias. Além disso, Goodhead cancelou também o estudo conjunto sobre leucemia infantil por idade da mãe que teria investigado o efeito na doença, da precipitação radioactiva da corrida armamentista, na década de 1960. Goodhead bloqueou também a inclusão no relatório final da Comissão CERRIE de uma secção que descrevia o desacordo em relação às opiniões da maioria, apesar de ter concordado durante o mandato de Meacher em incluir essas opiniões. Fê-lo ameaçando cada membro da comissão com a instauração de processos se eles permitissem a inclusão de opiniões discordantes no relatório final. Apresentou o que se dizia serem dois pareceres jurídicos de advogados do departamento (ou seja, do governo). Apresentou-os na última reunião, negando assim aos membros da comissão qualquer oportunidade para os estudarem antecipadamente ou para solicitarem aconselhamento independente. Ambos os pareceres indicavam, de forma vaga mas ameaçadora, que a inclusão de material enganador ou factualmente errado no relatório final podia fazer com que os membros da comissão, individualmente, fossem processados. Isto foi o suficiente para os assustar e fazê-los votar de forma a excluir a secção de oposição do relatório final, tal como a missão fundadora original exigia. Os nossos próprios consultores jurídicos informaram-nos mais tarde que os pareceres eram absurdos, mas nessa altura já era demasiado tarde. Assim, toda a finalidade da Comissão CERRIE foi anulada, todo aquele trabalho e dinheiro desperdiçados. Goodhead recebeu um OBE pouco tempo antes de mudar de posição sobre o resultado do relatório final. Foi acusado de tendenciosidade científica numa carta (que publiquei em Busby 2005) por um membro do seu próprio secretariado, Marion Hill, que se demitiu por causa desta questão. O segundo membro do secretariado constituído por três pessoas, o Dr. Paul Dorfman, juntou-se a mim e ao meu colega Richard Bramhall para produzir e publicar um Relatório Minoritário independente da Comissão CERRIE (CERRIE 2004b).

Prof. Ray Cartwright
Tendo chegado a diretor de Epidemiologia da Campanha de Investigação do Cancro, Cartwright, como investigador, foi coautor de um estudo em 1990 que mostrava uma ligação entre as radiações de origem humana nos estuários (por exemplo, provenientes da central de reprocessamento de Sellafield) e a leucemia infantil. Rapidamente foi promovido a diretor e mais tarde encarregado do estudo de Investigação do Cancro Infantil no Reino Unido, um projeto de 16 milhões de libras esterlinas com o objetivo de descobrir a causa do aumento do cancro infantil no Reino Unido. Este dinheiro veio do governo, mas também de instituições de beneficência e de cidadãos comuns que abriram os cordões à bolsa depois de verem as fotografias das crianças a morrer. Uma das perguntas iniciais a fazer por este estudo era sobre a exposição à radiação e, uma vez que Cartwright tinha provas claras de que esta podia ser uma causa possível, devia tê-la incluído no estudo. Não incluiu. Numa carta dirigida a Busby em 1994, Cartwright afirmou que a investigação não avaliaria os radionuclídeos de origem humana (isto é, provenientes da energia nuclear, de Sellafield ou da precipitação de armas). Após a conclusão do estudo em 1999, Cartwright foi questionado numa reunião aberta por Richard Bramhall da Low level Radiation Campaign (LLRC) sobre o seu estudo do estuário de 1990 e por que motivo não utilizara os resultados para informar o protocolo do estudo de Investigação do Cancro Infantil no Reino Unido. Cartwright respondeu que era porque tinha efetuado um segundo estudo mais avançado que não revelara nenhum efeito e discordava do seu primeiro estudo. Quando o desafiaram a apresentá-lo durante o ano seguinte, não o pôde fazer. Afinal era mentira. A LLRC enviou uma queixa formal ao General Medical Council da Associação Médica Britânica. O General Medical Council investigou e descobriu que não existia estudo nenhum, embora Cartwright produzisse entretanto, rapidamente, uma tese de uma das suas alunas, Frances Lloyd, em que se demonstrava, segundo ele, que não havia efeitos. Esse estudo tinha tantas falhas que chegava a ser ridículo e foi rejeitado pela Comissão CERRIE. A Associação Médica Britânica (BMA) requereu a Cartwright que pedisse desculpa por enganar o público e, eventualmente, ele pediu desculpa à LLRC numa carta. Mas o facto é que o estudo da leucemia infantil no âmbito da Investigação do Cancro Infantil no Reino Unido, com um custo de 16 milhões de libras esterlinas, omitiu analisar a causa mais provável do aumento do cancro infantil, porque o diretor orientou o estudo na direção errada, embora já tivesse provas obtidas através da sua própria investigação de qual era a causa (ou uma das causas). A certa altura, durante esse período, Cartwright fazia parte do Comité Organizador da Sociedade Britânica de Energia Nuclear. Sem dúvida que ele se tornou muito importante como diretor de epidemiologia da Campanha de Investigação do Cancro, terá ganho muito dinheiro, foi aclamado, recebeu um salário chorudo. Será isso a explicação?

Prof.ª Sarah Darby
Embora não fizesse parte da Comissão CERRIE inicial, Sarah Darby foi trazida por Goodhead como epidemiologista “independente”. Darby foi a famosa autora principal de pelo menos dois estudos sobre radiação com falhas graves, ambos com o falecido Prof. Sir Richard Doll, recentemente referido por ter estado comprometido no que se refere à sua epidemiologia pelas suas ligações financeiras à indústria.

O primeiro estudo foi o Estudo Nórdico da Leucemia, publicado no British Medical Journal em 1993 (ver referência na secção de referências abaixo), mais ou menos na altura do julgamento da leucemia infantil de Sellafield, Reay e Hope contra a BNFL. Este assunto está em grande medida coberto no meu livro Wolves of Water (pp.305-321). Sucintamente, os autores juntaram dados de registos de cancro diferentes em períodos diferentes para argumentarem que não houvera um aumento significativo da leucemia infantil durante o período de testes de armas na atmosfera. Foi talvez um encobrimento a sangue frio dos aumentos claros revelados nos dados do Registo de Cancro Dinamarquês, que os autores tinham utilizado como um dos conjuntos de dados e que, eventualmente, admitiram conhecer após uma investigação da Comissão CERRIE e outra investigação efetuada pela comissão de ética do British Medical Journal (BMJ), ao qual apresentei uma queixa. Estes dados dinamarqueses e a investigação inicial sobre a questão não foram citados no artigo de Darby et al. e, quando confrontada na Comissão CERRIE, Sarah Darby afirmou que os dados tinham sido destruídos. Mais tarde, após a queixa ao BMJ e à Comissão Dinamarquesa para a Desonestidade Científica apresentada por Busby, Darby afirmou que os dados tinham sido encontrados; revelavam a existência de um pico que tinha sido submerso por Darby et al. através de artimanhas estatísticas e apresentações inadequadas. Busby foi também a Copenhaga e obteu dados originais da mão do fundador do Registo de Cancro Dinamarquês, Johannes Clemmesen, que o confirmaram.

Além do embuste da leucemia infantil, a equipa Darby-Doll (com outros) realizou dois estudos dos veteranos dos testes da bomba A no Reino Unido, estudos esses que apresentavam falhas graves por muitas razões, sendo as principais uma alteração do protocolo a meio do estudo, o que reduziu a importância de um aumento dos casos de leucemia nos veteranos, descoberto na análise inicial.

Professor Brian Spratt, Professor William Bonfield
Vou agora voltar-me para o assunto das armas de urânio e, especificamente, para o comportamento da Royal Society. Afinal de contas, a Royal Society devia ser o lugar onde esperaríamos encontrar pureza e independência, um lugar onde não esperaríamos encontrar tendenciosidade e desonestidade científica.

Em meados da década de 1990, a síndrome da Guerra do Golfo tinha incapacitado 20% dos soldados do Reino Unido e dos Estados Unidos que tinham prestado serviço no Iraque. Houve um aumento do cancro, da leucemia e dos defeitos de nascença nas populações iraquianas. Com a continuação do uso de urânio empobrecido, agora nos Balcãs, começou a ser notificado um aumento semelhante de casos de cancro nas zonas afetadas, tendo os estudos de veteranos italianos de manutenção da paz revelado um aumento dos casos de leucemia e linfoma. Havia uma crença generalizada de que esses efeitos eram causados pela exposição às munições de urânio empobrecido que, quando utilizadas, produzem grandes quantidades de partículas de óxido de urânio inferiores a 1 mícron, muito dispersas e respiráveis. Apesar de muitos relatórios de cientistas e de agências de risco conotados com o poder instalado, argumentando que a radioatividade do urânio era demasiado fraca para ser a causa de qualquer cancro ou outra doença aos níveis prováveis de contaminação, esta opinião teve pouca aceitação por parte dos veteranos ou do público.

Em 2000, a Royal Society criou uma comissão para analisar a questão. O ministro britânico do Ambiente, Michael Meacher, sugeriu que eu integrasse essa comissão, mas a Royal Society recusou. No entanto, concordaram em solicitar-me que apresentasse provas.

Vamos parar aqui para pensar: Porquê a Royal Society? Por que é que a Royal Society criou uma comissão deste tipo? A OMS, a IAEA, o EURATOM, as Nações Unidas, os militares, o NRPB, todos disseram que o urânio empobrecido era seguro. Será que alguém da Royal Society acordou uma manhã e pensou: Que boa ideia? Ou será que o governo lhes pediu? Utilizar o bom nome da Royal Society para tranquilizar os veteranos? Tranquilizar o público de que o Reino Unido não era responsável por todas as crianças que morriam no Iraque?

O Prof. Brian Spratt FRS, microbiólogo, foi nomeado presidente da Comissão da Royal Society para os Efeitos das Armas de Urânio Empobrecido na Saúde. O consultor de efeitos radiológicos da comissão era o Prof. Dudley Goodhead, que já conhecemos.

Durante dois anos, a comissão da Royal Society colheu provas de muitos cientistas e, eventualmente, produziu dois relatórios sobre a questão. O relatório radiológico publicado em 2001 concluiu que as armas produziam poeiras que não se afastavam muito do local de impacto e não representavam um perigo a não ser que fossem inaladas em quantidades muito grandes (asfixia). Esta conclusão baseou-se inteiramente no parecer do NRPB e de Goodhead, que foi responsável pela secção radiológica do relatório.

Eu apresentei provas à comissão da Royal Society argumentando que as poeiras de urânio empobrecido eram uma exposição nova, que esse tipo de exposição causava elevadas doses internas locais e não podia ser tratado pelo modelo da Comissão Internacional de Proteção Radiológica (CIPR) que só era válido para doses agudas externas. Trouxe provas das minhas deslocações ao Kosovo e ao Iraque de que as poeiras percorriam grandes distâncias e permaneciam no ambiente durante muitos anos. Isto foi ignorado e omitido no relatório.

Dei a resposta dos veteranos no lançamento do relatório final da Royal Society de 2001, em Carlton House. Argumentei que os dados epidemiológicos e as novas provas científicas dos efeitos anómalos da radiação resultantes de exposições internas significavam que o relatório da Royal Society era um encobrimento e que o bom nome da Royal Society estava a ser usado para fins políticos. O meu relatório, “Depleted Science” (Ciência Empobrecida), foi apresentado em várias conferências e publicado na Internet em vários sites (www.cerrie.org/committee_papers/INFO_12-H.doc). Mas a história não se ficou por ali.

Na sequência do relatório da Royal Society, o Ministério da Defesa criou um organismo independente, o Depleted Uranium Oversight Board (DUOB), para medir os isótopos de urânio nos veteranos da Primeira Guerra do Golfo e analisar as novas provas científicas. Spratt pertencia a este comité. Eu também. Além da elaboração de protocolos de medição, em cada reunião do DUOB analisavam-se novas provas relativas aos efeitos do urânio na saúde. Nos quatro anos do DUOB, foram publicados muitos estudos na literatura revista por especialistas mostrando que a exposição ao urânio tinha efeitos genotóxicos anómalos e graves e que o urânio não podia ser avaliado utilizando os modelos de risco radiológico convencionais, que se baseavam em doses elevadas externas agudas em Hiroxima. Cientistas importantes e influentes argumentaram que havia um problema. Apresentei muitos desses argumentos a Brian Spratt no DUOB. Todos foram rejeitados ou ignorados nos relatórios finais.

Um desses argumentos passa agora a ser o centro de interesse desta história. Diz respeito ao urânio e aos fotoeletrões. Em 2003, apresentei uma nova teoria de reforço fotoeletrónico da radiotoxicidade do urânio à Comissão CERRIE, na sua Conferência Internacional em St Catherine’s College, Oxford, e mais tarde também ao DUOB. Apresentei-a a Brian Spratt, presidente da comissão da Royal Society, que tinha relatado que o urânio empobrecido não constituía um problema.

Vou só explicar a ideia aqui. É bastante simples. Todos os elementos absorvem radiação gama de fundo natural proporcionalmente à quarta potência do seu número atómico Z. Isso significa que o urânio (Z=92) tem a mais elevada absorção de raios gama de qualquer elemento que ocorre naturalmente. O número atómico efetivo de tecido vivo é Z = 3,4 de urânio, uma vez que UO2++ ião (ião uranilo) também se liga fortemente ao ADN e esta propriedade tem sido utilizada para obter a imagem do ADN no microscópio eletrónico, uma vez que a afinidade do urânio pelo ADN foi descoberta por Huxley em 1960. Segue-se que as partículas de urânio recolhem a radiação de fundo natural e concentram-na no corpo humano. Segue-se que, como o urânio se liga ao ADN, concentra o fundo natural no ADN. O rácio da quarta potência entre o urânio e o tecido vivo é de cerca de 250.000. Isto não é fantasia. Em 2005, um investigador dos EUA, Hainfeld, patenteou nanopartículas de ouro (Z=79) para melhorar os tratamentos de raio-X na destruição de tumores; isto significou que a minha ideia está basicamente correta. Em 2007, o meu colega Andreas Elsaesser aplicou o programa de monitorização da radiação com código FLUKA do método de Monte Carlo do CERN ao problema das partículas de ouro e urânio; os resultados revelaram que as minhas previsões do melhoramento fotoeletrónico da densidade de ionização junto dos átomos e partículas de urânio estavam corretas.

Perguntei ao Prof. Spratt, depois da minha apresentação ao DUOB (onde o Professor Goodhead também estava presente), se ele ainda pensava que o relatório da Royal Society tinha sido correto ao afirmar que o urânio não constituía um problema aos níveis gerados pela utilização de armas. Perguntei-lhe como é que se encontrava uma saída, uma vez que havia pessoas a morrer, o urânio continuava a ser utilizado e a Royal Society continuava a ser a autoridade principal a apoiar a sua utilização. Spratt, encurralado e em público, disse que eu devia enviar a teoria para o Journal da Royal Society: se a revista a publicasse, a Royal Society teria de prestar atenção. Em 2007, depois de me terem chamado a atenção para o artigo de Hainfeld, apresentei um pedido provisório de patente relativo ao urânio e ao melhoramento fotoeletrónico. Fiz uma busca na literatura e descobri que o melhoramento fotoeletrónico tinha sido tratado matematicamente e empiricamente numa série de artigos a partir de 1947, tratando principalmente do ouro. Escrevi dois artigos, um sobre partículas de urânio e outro sobre urânio ligado ao ADN. Enviei-os para a revista Proceedings of the Royal Society B, em junho de 2007. Foram ambos imediatamente “desubmetidos” pelos editores.

Telefonei aos editores e reclamei. Disseram que não se tratava de biologia: devia submetê-los ao Journal of the Royal Society Interface. Em conformidade, enviei os artigos para a Interface, cujo editor é o Prof. William Bonfield FRS, um cientista cuja área de investigação (e ligações à indústria e, portanto, ao dinheiro para investigação) são os materiais protéticos, isto é, substâncias metálicas utilizadas dentro do corpo humano. A teoria do Z elevado terá um efeito na utilização desses materiais, uma vez que o ouro e a platina são muitas vezes empregues (e explicariam os cancros que aparecem nas pessoas com próteses). Bonfield enviou o artigo para três avaliadores, todos eles pessoas que conheço e que me disseram que os tinham recebido. Todos disseram que recomendaram a sua publicação após algumas pequenas revisões.

Mas Bonfield rejeitou os artigos: a explicação foi que havia problemas de espaço na revista. Não são conhecidos casos de os editores se sobreporem aos avaliadores, especialmente numa área em que as consequências são tão importantes para a saúde humana. Apresentei uma queixa ao editor interno da Royal Society, Tim Holt. Abordei as questões óbvias relativamente à comissão do urânio empobrecido da Royal Society e à política. Holt concordou em falar com Bonfield. Bonfield rejeitou novamente os artigos. Contactei o secretário adjunto da Royal Society, Peter Collins. A sua explicação foi que o Journal of the Royal Society Interface não fazia parte da Royal Society, apesar do nome. Disse que ia falar com Bonfield. Mas em dada altura escreveu a dizer que não podia fazer nada. Os artigos foram rejeitados. O conselho de supervisão sediado nos EUA, incluindo 41 cientistas e peritos, reclamou numa carta aberta ao presidente da Royal Society. Mas foram ignorados.

Portanto, aqui ficam as minhas perguntas.

As pessoas que apresentei são culpadas de crimes? São culpadas de estupidez ou cobardia? São inocentes? As crianças que morreram porque se encontravam no útero na altura de Chernobyl, morreram porque representavam o nível de probabilidade do evento de 1 em 100.000.000? E quanto às vítimas da BSE? As crianças com leucemia de Sellafield?

Tendo ouvido Goodhead e vendo mais tarde que a nova investigação mostrava que ele estava errado, será que Spratt devia ter reconvocado a reunião da comissão do urânio empobrecido da Royal Society e salvado milhares de vidas?

Será que Darby e Doll deviam ser processados por juntarem duas séries de cancro separadas para retirarem provas de que a precipitação provocava leucemia infantil, não fazendo referência a provas dinamarquesas anteriores incluídas em artigos e fingindo que os dados estavam destruídos?

Será que os cientistas que apresentei aqui e muitos que não tive espaço para apresentar mas que referi nos meus livros são alvo de algum tipo de investigação e processo criminal?

Lembrem-se, trata-se da doença e da morte de pessoas inocentes resultantes de provas distorcidas e de artimanhas políticas e científicas. Ou às vezes, talvez não, talvez apenas diferenças de opinião genuínas. E temos de ser cuidadosos: se fosse criada uma organização do tipo comissão para a desonestidade científica, será que não seria utilizada, como a Royal Society foi, para negar a investigação boa ou apoiar as práticas más? Creio que a resposta é a transparência e comissões de oposição. A Comissão CERRIE foi criada como uma comissão desse tipo e teria cumprido a sua missão se o relatório final tivesse podido incluir todos os lados da questão e se a investigação tivesse podido continuar. Nessa altura os políticos podiam ter-se decidido e o público podia ter visto os argumentos.

O que todas estas histórias têm em comum é que não existe nenhuma “comissão para investigar a desonestidade científica”. No Reino Unido tudo é informal, mas isso significa que não acontece nada. Foram apresentadas queixas à BMA e ao BMJ sobre três das pessoas acima referidas, Darby, Doll e Cartwright. Em cada caso, a conclusão foi que haveria um caso que merecia resposta, mas nada podia ser feito. A BMA pode punir um médico por molestar sexualmente uma doente, pode impedi-lo de exercer, mas não pode fazer nada relativamente a um médico que escreve um artigo de investigação falso que apoia uma indústria que mata por rotina milhares de pessoas com as suas descargas para o ambiente. Fiz queixa de Darby e Doll à Comissão Dinamarquesa para a Desonestidade Científica, mas o juiz desta comissão, responsável pela investigação, decidiu, eventualmente, que tinha passado demasiado tempo entre o artigo (1993) e a queixa (2003) pelo que o caso prescrevera.

Através da sua tendenciosidade, da sua epidemiologia inadequada e do seu apoio a um modelo incorreto que apoia a libertação de radiações de instalações nucleares, essas pessoas foram responsáveis pelas mortes de milhares de pessoas. São tão culpadas como se as tivessem envenenado. Não são só elas: posso nomear muitas pessoas que são igualmente culpadas e que deviam responder em tribunal. Se os investigadores científicos da talidomida fossem condenados na Alemanha pela sua contribuição para o efeito teratogénico do fármaco, essas pessoas e outros cientistas que excluem provas, influenciam os seus próprios resultados ou utilizam intencionalmente a ciência para apoiar processos nocivos deviam ser também enviadas para a cadeia. Estabeleciam-se leis na altura em que a ciência não era um problema e a contaminação e os respetivos efeitos não estavam tão fortemente ligados a interesses financeiros. A sociedade foi apanhada por crimes científicos que não são atualmente reconhecidos, embora tenham, efetivamente, o mesmo efeito de outros crimes e muitas vezes tenham consequências muito mais graves e vastas. Chegou a altura de se criar um Conselho de Supervisão Científica do Reino Unido, independente, ou uma Comissão para a Desonestidade Científica, para julgar esses cientistas e avaliadores de revistas científicas, utilizando juízes e regras de prova, com advogados de acusação e de defesa e cientistas a deporem como testemunhas periciais.

Pós-escrito, outubro de 2011

O ensaio acima foi uma contribuição para o livro Iraq Silent Death editado por Christian Scherrer do Instituto da Paz de Hiroxima e recentemente publicado pela Universidade Sains Malásia, ISBN 978-983-861-504-4. Mas não o encontram no Amazon. A base do ensaio foi uma apresentação que fiz na Royal Society em Londres, em 2008, numa reunião chamada “Desonestidade Científica”. Referia-me a acontecimentos na interface ciência-política ocorridos entre 2001 e 2007. Esses casos de desonestidade científica e tendenciosidade provinham de cientistas que faziam parte de um sistema. Mas desde então as coisas pioraram imenso. Uma amostra do que se passa é apresentada no mesmo livro pelo filósofo Piotr Bein, que descreve no seu ensaio o sistema de controlo dos meios de comunicação e de infiltração das ONG que está a ser desenvolvido pelos militares e pelos grupos pró-nucleares. A situação agora, depois da catástrofe de Fukushima, que é uma catástrofe potencial para o complexo nuclear-militar e também uma catástrofe muito real para o povo japonês, é alarmante e clara. Vou apresentar brevemente mais alguns personagens que considero serem cientistas desonestos: mas, nestes casos, a história do seu posicionamento e o seu comportamento deixam claro que as suas posições e o seu estatuto foram orquestrados de forma a assegurar que seja dado aconselhamento errado ao governo, aconselhamento que protege a indústria nuclear, os militares e os poderosos interesses financeiros. Ao solicitar a peritos independentes que avaliem a ciência para os decisores políticos, a existência dessas pessoas (e há outras em lugares importantes) mostra que foram cometidos alguns erros graves.

1. Dr. Richard Wakeford

Wakeford trabalhou para a British Nuclear Fuels em Sellafield durante a maior parte da sua vida profissional, tendo sido diretor de investigação sobre os efeitos da radiação na saúde. Era licenciado em física e o seu doutoramento na Universidade de Liverpool (que, aparentemente, teve de ser ressubmetido) foi numa área obscura da física das partículas.

Admitiu perante mim que não sabe nada de química ou de biologia e que pouco se importa. E embora tenha publicado artigos na área da epidemiologia, tal como eu não é um epidemiologista com formação universitária.

Conheci-o pela primeira vez na Irlanda, quando foi enviado para pacificar os irlandeses que estavam preocupados com o aumento dos casos de cancro ao longo da costa do mar da Irlanda, que os habitantes locais (com razão) atribuíam às enormes quantidades de contaminação da BNFL em Sellafield, os empregadores de Wakeford. O seu trabalho consistia em atacar qualquer pessoa que tivesse uma opinião diferente e fê-lo com imenso prazer, descrevendo-se a si próprio em conversa comigo uma vez como o “Rottweiler da BNFL”. Colaborou com outras pessoas cientificamente desonestas, incluindo a Dra. Sarah Darby (que apresentei no ensaio acima) e Sir Richard Doll. A ideia era mostrar que os baixos níveis de exposição a radioatividade interna eram inofensivos, algo que Darby e Doll tinham tentado fazer com o estudo nórdico da leucemia, um caso clássico de desonestidade científica. Wakeford publicou recentemente um novo artigo individual (Wakeford 2010) sobre este assunto, que é igualmente desonesto na medida em que ele deslocou um ponto de dados de uma série cronológica para o início do seu espaço de tempo, sugerindo assim que não havia efeitos quando, de facto, havia. Também não abordou nem citou o pico de leucemia infantil na Dinamarca, o único fluxo de dados que recua suficientemente para detetar o efeito (ver Wolves of Water, pp.305-316, e ver Low Level Radiation Campaign >> clique em “Dishonesty” na barra de navegação à esquerda).

Mas estou a divagar. Não pretendo mostrar que Wakeford é tendencioso, desonesto e que está errado (o que é tudo verdade). O que me preocupa é a sua trajetória, a sua carreira. Em 2004, estava na Comissão CERRIE, representando a BNFL. E representava sem dúvida a BNFL. Mas tudo bem. Todos sabiam de onde ele vinha e podiam fazer concessões. Depois da Comissão CERRIE, Wakeford começou a atacar-me pessoalmente nas colunas do Journal of Radiological Protection, do qual era editor. É uma forma realmente má de o fazer, uma vez que nenhum especialista revia o que ele escrevia. E o que ele escrevia era calunioso e falso. Não me pediu para responder. Os ataques eram sobre o cancro e a leucemia próximo do mar da Irlanda e também sobre outros estudos que eu tinha efetuado que mostravam que a exposição à radiação interna constituia um perigo grave. Mas uma vez mais, todos sabiam de onde ele vinha.

Na altura em que comecei a mostrar teoricamente que o urânio era um perigo grave devido aos seus efeitos fotoeletrónicos secundários ([ver Wings of Death, Capítulo 7, p. 188- e Wolves of Water, p.59, p.450, p.456]) que explicavam os casos de cancro e malformações no Iraque, tornou-se perfeitamente óbvio que o modelo de risco da CIPR que Wakeford utilizava estava numa total desordem. O Conselho Nacional de Proteção Radiológica (cujo nome, apropriadamente, tinha passado a ser Agência de Proteção da Saúde, Divisão de Proteção contra a Radiação (HPARP)) e outros, tinham tentado abordar esta questão mas não tinham conseguido. Eles (e Wakeford) tinham perdido o argumento científico. O Dr. Jack Valentin, o chefe da CIPR (não bem o chefe, ver abaixo), tinha-se reformado: já lhe chegava. Estava escrito na parede. Valentin tinha admitido que o modelo da CIPR estava incorreto e não podia ser utilizado para avaliar o risco em situações como Fukushima. Isto foi gravado em vídeo, por Ditta Rietuma, e colocado na Internet, por exemplo, em http://www.youtube.com/watch?v=k2JFxnAkTW4

O que fazer?

Aqui está o que eles fizeram. Wakeford era claramente o mais espertalhão de todos. É esperto, conhecedor, não tem escrúpulos e é maldoso. Mas não podiam utilizá-lo uma vez que trabalhava para a BNFL. Era comprovadamente tendencioso. Portanto “pediu a reforma antecipada”. Foi imediatamente nomeado “Professor Visitante” no Dalton Institute, a faculdade financiada pela energia nuclear da Universidade de Manchester. Agora era “independente” e em breve apareceu como consultor independente. Surgiu no inquérito de Kings Cliffe ao plano (desgraçado e perigoso) para enterrar enormes quantidades de resíduos radioativos num aterro próximo de Peterborough. Os habitantes locais pediram-me para depor como testemunha pericial nesse inquérito, perante um inspetor de planeamento, não um juiz. Investiguei as questões e rapidamente descobri provas de uma conspiração entre a empresa que apresentava o pedido e os seus consultores independentes e, possivelmente também, a Agência do Ambiente. Era bastante evidente. Além disso, descobri erros enormes tanto no pedido como nas declarações de impacto e nos documentos da Agência do Ambiente que aprovavam o pedido como sendo seguro. Mas Wakeford levantou-se e disse à comissão de inquérito que eu represento o extremo mais louco da compreensão científica nesta área e sugeriu que tudo o que eu tivesse dito e escrito deveria ser ignorado. Até aqui nada de novo exceto que Wakeford foi descrito como um “perito científico independente” e, com base nas suas provas, o responsável pelo planeamento ignorou totalmente as provas que eu apresentei.

E depois há Fukushima. Quando aconteceu, fui o primeiro a chamar a atenção para a enormidade óbvia dos acontecimentos e a compará-los a Chernobyl. Disse na televisão e na rádio, BBC, ITV e Russia Today, que Fukushima era pior que Chernobyl. Fui rapidamente excluído da BBC que, vergonhosamente, alinhou com as opiniões pró-nucleares e continua a fazê-lo. Mas quem é que lá estava a depreciar o acidente? Richard Wakeford, perito científico independente.

Agora há outro inquérito planeado à nova construção de uma central nuclear em Somerset, em Hinkley Point, um lugar onde fiz vários estudos que mostraram riscos excessivos significativos de cancro da mama e também de mortalidade infantil. Quem será o perito principal para as questões de saúde? O Professor Richard Wakeford, cientista independente do Dalton Institute de Manchester. Mas o mais preocupante de tudo é que ele agora apareceu na Comissão 1 da CIPR (www.icrp.org), que se mudou da Suécia para o Canadá. Wakeford está também a aconselhar a UE e fez parte da comissão do Grupo Consultivo Científico de Emergências (SAGE) do Departamento de Saúde do Reino Unido que aconselha o governo sobre a gravidade de Fukushima (de forma totalmente errada, como se viu) e também o governo japonês. Aparece em todo o lado, Fukushima, Kings Cliffe, na UE em Bruxelas, Hinkley Point, o Pimpinela Escarlate da indústria nuclear.

Portanto, onde é que quero chegar? É assim. O complexo nuclear-militar está a orquestrar os seus empregados inserindo-os em lugares chave. Sempre foi assim, mas agora é mais do que evidente uma vez que tiveram de pôr de parte a subtileza devido ao pânico da energia nuclear na sequência de Fukushima. Portanto, a minha mensagem: cuidado com Richard Wakeford. Oh, uma última coisa. Ele é quase de certeza o bloguista anónimo Richard D que faz o site chrisbusbyexposed na Internet. Os conhecimentos que o bloguista tem da área de investigação e do que eu fiz, e as próprias palavras que ele utiliza, deixam claro que Wakeford é o autor deste blogue ou então que fornece informações ao autor. Wakeford nega. O complexo nuclear-militar tem uma máquina, uma máquina dos media, uma máquina de black ops de propaganda, e Wakeford faz parte dela, a parte da ciência.

Por último, há aqui um ângulo interessante. A indústria nuclear precisa de um lugar onde enfiar os resíduos nucleares. Os suecos já vieram com a solução: colocam-nos em cilindros de cobre num depósito profundo no Mar Báltico, que já é o mar mais radioativo do mundo. Para assegurar que o projeto é visto como sendo avaliado de forma justa, a organização de proteção radiológica sueca, SSM, está a inscrever “peritos independentes”. O protocolo para garantir a independência desses peritos externos foi estabelecido pela Agência Internacional da Energia Atómica, uma agência que “procura acelerar e aumentar a contribuição da energia atómica para a paz, saúde e prosperidade em todo o mundo” (Estatutos da AIEA, artigo 2.º). Nenhuma tendenciosidade aí. O requisito relativo à independência é que o perito não tenha trabalhado para a indústria nuclear durante dois anos antes da inscrição. É assim que uma pessoa como o Professor Richard Wakeford se pode tornar um “perito independente”. A atividade dos operadores nucleares na Suécia não se limita a Forsmark. Existe uma central de reciclagem de resíduos em rápido desenvolvimento gerida pela Studsvik (nome da empresa) próximo de Nyköping, na parte oriental da Suécia, que dissolve peças de reatores canadianos transformando-as em caçarolas e lança o excesso de resíduos no Báltico. Quem é a principal autoridade de saúde na Suécia?

2. Dr. Lars-Erik Holm

Ora bem, não vou dizer muito sobre Lars-Erik Holm. É o ex-presidente da CIPR e membro da comissão principal em 1986-89 e delegado ao Comité Científico das Nações Unidas para o Estudo dos Efeitos das Radiações Atómicas (UNSCEAR) durante muitos anos. Chefiou a organização sueca de proteção contra a radiação, anteriormente conhecida como SSI, foi também presidente do UNSCEAR em 2001 e delegado ao UNSCEAR em 2006. Ficou bem conhecido por afirmar que o número total de mortos de Chernobyl se limitava a 30 operadores da central, altamente irradiados. Iniciou a sua carreira investigando os efeitos do radioiodo. Fê-lo através de um estudo epidemiológico de doentes que tinham sido tratados com iodo radioativo para redução de glândulas tiroides hiperativas. O Dr. John Gofman, ex-diretor de efeitos biomédicos da Agência da Energia Atómica dos EUA, demorou algum tempo a desconstruir o estudo do iodo de Holm. Gofman referiu que Holm tinha retirado todos os doentes que tinham desenvolvido cancro nos primeiros cinco anos após o tratamento e concluiu, ao fim de mais de 11 páginas de análise no seu livro (Gofman 1990), que o estudo do iodo de Holm era “um estudo com falhas fatais”. O estudo utilizou controlos incorretos para argumentar que a exposição interna proveniente do radioiodo era menos eficaz a provocar cancro do que a radiação externa com a mesma dose. Os resultados do estudo protegeram sem dúvida a indústria nuclear, permitindo à CIPR estabelecer limites à exposição elevados, e foi só quando ocorreu o acidente de Chernobyl que se viu que o estudo com falhas de Holm tinha produzido elementos de previsão de danos extremamente incorretos. É verdadeiramente extraordinário que esse estudo tenha passado pela revisão de especialistas.

Em qualquer caso, foi o primeiro degrau de Holm na escada para a fama e a fortuna. Mas a melhor parte de todas vem agora. Lars-Erik Holm é atualmente o ministro da Saúde da Suécia. O homem que se encontra no topo do sistema de saúde da Suécia — um país que confina com o Mar Báltico, o mais radioativo do mundo, em que os efeitos de Chernobyl são significativos e mensuráveis (Tondel 1996), em que há um renascimento da energia nuclear e em que está a ser construído um enorme depósito de resíduos nucleares no fundo do Mar Báltico em Forsmark. E, a partir desse lugar, ele foi fundamental para fazer com que Martin Tondel interrompesse a investigação que mostrava que os efeitos do acidente de Chernobyl na saúde, na Suécia, causaram um aumento significativo do cancro. Contudo, o que ele descobriu foi talvez o resultado mais importante (ver referência abaixo) da investigação do cancro dos últimos vinte anos.

O complexo nuclear-militar tinha de ter o seu homem no topo na Suécia para que tudo isto fosse em frente. E lá está ele. Lars-Erik Holm.

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Bibliografia:

Busby, C. C. (1995), Wings of Death: Nuclear Pollution and Human Health (Aberystwyth: Green Audit)

Busby Chris (2006), Wolves of Water. A Study Constructed from Atomic Radiation, Morality, Epidemiology, Science, Bias, Philosophy and Death. Aberystwyth: Green Audit

Busby C.C (2003) ed with Bertell R, Yablokov A, Schmitz Feuerhake I and Scott Cato M. ECRR2003: 2003 recommendations of the European Committee on Radiation Risk- The health effects of ionizing radiation at low dose--Regulator's edition. (Brussels: ECRR) 2004 Traduções deste artigo em françês, japonês, russo e espanhol (ver www.euradcom.org for details)

Busby CC (2005) Depleted Uranium Weapons, metal particles and radiation dose. European J. Biology and Bioelectromagnetics. 1(1) 82-93

Busby CC (2005) Does uranium contamination amplify natural background radiation dose to the DNA? European J. Biology and Bioelectromagnetics. 1 (2) 120-131

Busby CC, Bramhall R and Dorfman P (2004) CERRIE Minority Report 2004: Minority Report of the UK Department of Health/ Department of Environment (DEFRA) Committee Examining Radiation Risk from Internal Emitters (CERRIE) Aberystwyth: Sosiumi Press

Busby Chris (2009) Depleted Uranium, Why all the fuss? Disarmament Forum 3 25-33 Geneva: United Nations

CERRIE (2004) Report of the Committee Examining Radiation Risk from Internal Emitters (CERRIE) Chilton, UK: National Radiological Protection Board

Darby, S. C., Olsen, J. H., Doll, R., Thakrav, B., de Nully Brown, P., Storm, H. H., Barlow, L., Langmark, F., Teppo, L., and Tulinius, H. (1992), `Trends in Childhood Leukemia in the Nordic Countries in Relation to Fallout from Nuclear Weapons Testing', British Medical Journal, 304: 1005-9.

Gofman 1990 Radiation-Induced cancer from Low-Dose Exposure: an Independent Analysis. John W. Gofman M.D/, Ph.D. First Edition. Committee for Social Responsibility, Inc. CNR Book Division. Post Office Box 11207 San Francisco California 94101 USA [For more information see www.llrc.org >> click on “Dishonesty” in the left-hand nav bar.]

Scott Cato MS, Busby CC, Bramhall R (2000), I don’t know Much about Science: tomada de decisões políticas em áreas científicas e técnicas. Aberystwyth: Green Audit (este livro influenciou a estrutura e formação da Comissão CERRIE e defende uma estrutura de oposição aos comités consultivos de ciência a fim de ter em conta a tendenciosidade cultural no aconselhamento sobre ciência. Prosseguiu agora com a rede PINCHE na Europa).

Tondel M, Carlsson G, Eriiksson M, Jakobssen S, Flodin U, Skoldestig A, Axelson O (1996) Incidence of neoplasms in ages 0-19 y in parts of Sweden with high 137Cs fallout after the Chernobyl accident. Health Phys; 71: 947-50

Van den Hazel P, Zuurbier M, Bistrup M L, Busby C, Fucic A, Koppe JG et al (2006) Policy and science in children’s health and environment: Recommendations from the PINCHE project. Acta Paediatrica S 453 114-119

Wakeford Richard, Darby Sarah and Murphy Michael M G (2010) Temporal trends in childhood leukaemia incidence following exposure to radioactive fallout from atmospheric nuclear weapons testing. Rad. Envir. Biophys. 49 213-227

Publicado a 20 de janeiro de 2012 por Tony Boys

http://candobetter.net/node/2744
(Nexus 20(1) Dec 2012-Jan 2013)




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